As Identidades Culturais

“Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos que a cidade de Brasília, inexistente e completa, comoum germecontéme resume a vida deum homem, uma árvore, uma civilização”.

Carlos Drummond de Andrade

Quando viu pela primeira vez o projeto de Brasília, desenhado pelo colega e urbanista Lucio Costa, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade
escreveu: “Era um rabisco e pulsava”. O ano era 1957. Construída três anos depois do encantamento do poeta, Brasília tem hoje 52 anos e é uma cidade completa, moderna, dinâmica e que pulsa – como nunca.

E será que pode uma cidade erguida de uma maquete ter vida cultural própria? A identidade cultural de uma localidade é resultado de vários fatores, como a chegada de pessoas de outras regiões e o sotaque trazido por elas, além da paisagem e da culinária que o clima e a vegetação do local implicam. Quanto mais destoantes são os costumes e os hábitos de uma cidade em relação às outras, mais forte a identidade cultural. Sim, Brasília já tem sua identidade cultural: é uma cidade com a cara de todo o Brasil. Ela caracteriza o princípio fundamental do Brasil: a diversidade cultural.

O diferencial de Brasília está na capacidade de receber moradores vindos de todos os estados sem que eles precisem se adequar ou confrontar a cultural local. Aqui, todos – mineiros, gaúchos, piauienses, acreanos – fazem parte de uma identidade em formação. Ao ser construída a partir de uma folha em branco, Brasília anunciava a identidade que estava fadada a ter: a de cidade agregadora, que aceita costumes e sotaques de todas as regiões do país.

A cidade-maquete tem hoje dinâmica própria. A população venera Oscar Niemeyer, mas não aceita mais seus projetos construídos à revelia, ressaltando que a cidade não é mais somente a prancheta do arquiteto. E os hieróglifos que denominam as avenidas sem esquinas ganharam apelidos próprios – a rua das farmácias, a dos restaurantes, a da moda. É a cidade ganhando vida e cultura próprias, no menor dos detalhes.

Esse híbrido de modernismo arquitetônico e costumes regionais trazidos de todos os cantos do país dá a Brasília um caráter cultural único. A cidade é o único bem que recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na modernidade, designação que coloca a capital em ainda maior evidência no mundo.

Vinte e cinco anos depois de receber o título, o governo do Distrito Federal realizará este ano ações para promover o Ano da Valorização de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade. O intuito é que Brasília, como catalisadora de todas as identidades culturais do país, seja um cartão de visita para o mundo.

O importante antropólogo Darcy Ribeiro, em seu célebre livro O povo brasileiro: a evolução e o sentido do Brasil, explica o que é ser brasileiro. Segundo ele, “[…] somos uma nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência de todas as raças e todas as culturas e porque assentada na bela e luminosa província da terra”. Nessas breves palavras, o autor também resume o que é ser brasiliense – “Uma pessoa que vive em uma capital cosmopolita que reúne em si todo o Brasil”.