Culturais

São nas grandes instituições que se encontram os elementos mais interessantes para o turista cultural. Museus, centros culturais, cinemas, teatros e bibliotecas constituem um grande atrativo. A combinação da oferta artística com espaços de convivência e contemplação é uma mola mestra na cultura. Para quem quer conhecer a cultura no DF, uma visita a estes espaços é essencial:

Conjunto Cultural da República 

Oscar Niemeyer projetou um conjunto de seis prédios nos Setores Culturais Sul e Norte no projeto original de Brasília. Desse conjunto, foram construídos a Biblioteca Nacional de Brasília (BNB) e o Museu Nacional Honestino Guimarães, situados do lado sul.

Aberta à comunidade em dezembro de 2008, a BNB possui um acervo estimado em cerca de 100 mil livros, dos quais já estão catalogados mais de 10 mil exemplares. O processamento das obras foi iniciado em 2009, atentando-se à organização de duas grandes coleções, uma popular e uma especializada em temas brasileiros, de ampla abrangência às áreas do conhecimento.

O Museu Nacional é o mais importante centro de artes da capital federal e é utilizado para exposições itinerantes de artistas renomados e temas importantes para a sociedade, palestras, mostra de filmes, seminários e eventos importantes. Além disso, tem sido responsável pelas exposições do acervo do Museu de Arte Brasileira (MAB), com obras de, entre outros, Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Iberê Camargo, Lygia Pape, Nuno Ramos e Waltércio Caldas.

BIBLIOTECA NACIONAL DE BRASÍLIA
Endereço Setor Cultural Sul, Lote 2,
Edifício da Biblioteca Nacional
Funcionamento 2ª a 6ª das 9h às 20h45
Sábados e domingos das 9h às 17h45
Telefone (61) 3325-6257

MUSEU NACIONAL HONESTINO GUIMARÃES 
Endereço Setor Cultural Sul, Lote 2,
próximo à Rodoviária do Plano Piloto – Zona 0
Funcionamento 3ª a domingo das 9h às 18h30
Telefones (61) 3325-5220 e 3325-6410

Teatro Nacional 

Entre os edifícios culturais, o Teatro Nacional é o maior projeto de Oscar Niemeyer em Brasília. É também uma das obras mais visitadas do conjunto arquitetônico da capital federal. Com forma de pirâmide irregular, o espaço conta com 3.608 vidros nas fachadas leste e oeste. Os cubos brancos nas paredes norte e sul, de dimensões diversas, foram desenhados por Athos Bulcão. Esses relevos são a maior e mais monumental obra de intervenção urbana de Athos Bulcão. Na elaboração do projeto, Oscar Niemeyer teve a colaboração do pintor, cenógrafo e técnico de teatro italiano Aldo Calvo. No seu interior destacam-se as salas Martins Pena (com capacidade para 407 pessoas), Villa-Lobos (1.407 pessoas) e Alberto Nepomuceno (60 pessoas), onde se realizam concertos, apresentações de teatro e dança e outras representações culturais. Vale destacar também a Galeria Athos Bulcão – que fica em espaço anexo ao teatro – e o foyer, que conta com esculturas de Ceschiatti e MarianePerreti.

Endereço St. Cultural Norte, Via N2, s/n – Brasília
Horário diariamente das 9h às 20h
Telefone (61) 3325-6239

Foto: Kazuo Okubo

Clube do Choro 

Um bom exemplo de espaço cultural que se tornou referência em Brasília é o Clube do Choro. Considerado por muitos especialistas como uma dasinstituiçõesmusicaismaisimportantesdopaís, o local inaugurou nova sede em 2011, com projeto de Oscar Niemeyer.

O local conta com um espaço para apresentações com capacidade para 800 pessoas. Além disso, o novo Espaço Cultural do Choro abriga as dependências de uma escola para mil alunos, com salas de aula e cabines acústicas de estudo, e um centro de referência e memória aberto a pesquisadores e interessados, com documentos, livros, fotos, partituras e vídeos que registram a história do choro em Brasília e no Brasil.

Endereço SDC, Bloco G, Eixo Monumental
Horário (informações e bilheteria) 2ª a 6ª das 13h às 21h • Sábado das 19h às 21h
Telefone (61) 3224-0599

Memorial Darcy Ribeiro 

Inaugurado em 2010 e localizado na UnB, o Memorial Darcy Ribeiro é o mais novo complexo cultural do DF. O espaço, apelidado pelo próprio Darcy de Beijódromo, é um moderno Centro Cultural com salas de aulas, biblioteca, salas de exposições, auditório com 200 lugares e cineclube. O projeto é do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé.

Ainda na década de 1990, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) decidiu que as imagens que registrou, as anotações guardadas durante anos de pesquisa, o material reunido, os filmes, as gravações em trabalhos de campo e os livros tão queridos por ele deveriam ficar na universidade que fundou.

Para ele, o espaço de acolhimento de sua obra deveria ser um lugar de convivência, porque ele via o conhecimento como uma relação de afeto. Em cartas trocadas com o arquiteto parceiro de Oscar Niemeyer, Darcy afirmava que seu memorial “seria um disco voador enorme, pousado no pedaço mais bonito do campus da UnB.”

Endereço CampusDarcyRibeiro, entreaBiblioteca e a Reitoria
Horário 2ª a 6ª das 8h às 18h
Telefone (61) 3107-0581

Funarte Brasília 

O complexo cultural da Funarte em Brasília reúne espaços culturais para todos os gostos. A Sala Funarte Cássia Eller acolhe espetáculos locais e nacionais de música popular brasileira. O Teatro Funarte Plínio Marcos, um dos mais privilegiados espaços da capital federal, é ocupado por edital com espetáculos de artes cênicas e música, por artistas locais e grandes nomes nacionais. O espaço Marcos, que está à disposição de grupos para ensaios de suas montagens, abrigatambémencontros, seminários, oficinas e cursos de interpretação para atores de teatro. Na área de artes visuais, a Galeria Funarte Fayga Ostrower e o Espaço Marquise exibem mostras de arte contemporânea que divulgam a obra de artistas regionais e nacionais.

Endereço Eixo Monumental — Setor de Divulgação Cultura, Lote 2 — Brasília-DF
Horário 2ª a domingo das 9h às 21h
Telefone (61) 3322 2076

Casa do Cantador 

A cidade de Ceilândia, a mais populosa do DF, concentra um grande número de imigrantes do Nordeste. A Casa do Cantador é totalmente dedicada à poesia e à literatura de cordel no Distrito Federal. O local é palco de apresentações de grandes nomes da cultura nordestina, como cantores de repente e embolada, exposição de culinária nordestina, oficina de música e trabalhos de inclusão digital. Conta também com a biblioteca batizada de Patativa do Assaré, na qual é possível encontrar um grande acervo de cordéis, entre eles exemplares de Jorge Amado e Ariano Suassuna. Projetada por Oscar Niemeyer, a casa é a única obra do arquiteto fora do Plano Piloto e apresenta uma concha acústica que permite a evasão do som para todo o ambiente, assemelhando-se a um teatro, onde é possível ouvir com clareza até nas últimas fileiras da arquibancada. Essa característica torna a casa um ótimo palco para a propagação da cultura nordestina, seja por meio da música seja do teatro.

Endereço QNN 32, Área Especial, Ceilândia Sul
Horário 2ª a 6ª das 8h às 18h
Telefone (61) 3901-1298

Memorial dos Povos Indígenas 

Oscar Niemeyer concebeu o Memorial dos Povos Indígenas em forma de espiral, remetendo a uma maloca redonda dos índios yanomami. O espaço tem acervo de 382 peças doadas pelos antropólogos Darcy e Berta Ribeiro. A coleção etnográfica inclui alguns dos melhores exemplares da plumaria urubu-kaapor, os bancos de madeira dos yawalapiti, kuikuro e juruna, as máscaras e instrumentos musicais do Alto Xingu e Amazonas, que foram reunidas durante aproximadamente 40 anos de pesquisa de campo. O Memorial também promove eventos com a presença e a participação de representantes indígenas de diferentes regiões do país.

Endereço Eixo Monumental Oeste, Praça do Buriti, em frente ao Memorial JK
Horário de visitação 2ª a 6ª das 9h às 18h; sábados, domingos e feriados das 10h às 18h
Telefones (61) 3342-1157 / 3344-1154 / 3342-1156

CCBB Brasília 

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) é um dos principais protagonistas do cenário artístico brasiliense. Sua programação é multimídia e inclui atividades nas áreas de música, teatro, cinema e artes visuais. O prédio foi criado por Oscar Niemeyer em 1993 e conta com um teatro, duas galerias climatizadas para exposições, uma praça de eventos externa (incluindo jardins de esculturas) com 1.500 m2, uma sala multiuso e uma sala de cinema.

Endereço SCES, Trecho 2, Conjunto 22
Horário 3ª a domingo das 9h às 21h
Telefone (61) 3310-7087

Cine Brasília 

A história do Cine Brasília está definitivamente ligada à de Brasília. Aberto ao público durante os festejos da inauguração da nova capital, em 22 de abril de 1960. Ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, o cinema foi marcado por uma plateia participativa que manifestava, com vaias e aplausos, sua opinião sobre os filmes exibidos. É também a casa do Festival de Brasília, um dos eventos cinematográficos mais importantes do Brasil. O projeto da sala é de Oscar Niemeyer.

Endereço EQS 106/107 (Asa Sul)
Horário 2ª a domingo a partir das 17h
Telefone (61) 3244-1660

Museu Vivo da Memória Candanga 

Localizado no Núcleo Bandeirante, o acervo do museu guarda toda a memória da construção de Brasília, distribuído pela exposição permanente Poeira, Lona e Concreto, que narra a história da capital federal desde os primórdios de sua construção até a inauguração, em 1960.

São fotos de Mário Moreira Fontenelle (primeiro fotógrafo oficial de Brasília), Peter Scheir e Joaquim Paiva. Fazem parte do acervo também peças de artesanato e arte popular integrantes da Casa do Mestre Popular e da exposição Renovação e Tradição – Novos Caminhos.

Um dos destaques do Museu Vivo da Memória Candanga são as Oficinas do Saber Fazer, que, têm o objetivo de documentar e recriar os saberes e os modos de vida diversos dos que aqui se encontraram para construir a cidade. São oficinas de artesanato e arte popular para a comunidade em geral.

Endereço Via Epia Sul, SPMS, Lote D — Núcleo Bandeirante-DF
Horário De 3ª a domingo das 9h às 17h
Telefone (61) 3301-3590

Memorial JK 

Dedicado ao ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, no local encontram-se uma câmara mortuária onde está o corpo de JK, diversos de seus pertences, como sua biblioteca pessoal e fotos dele e de sua esposa, Sarah. É um verdadeiro percurso da história política e pessoal de um dos maiores líderes da história do Brasil.

O edifício projetado por Niemeyer contou com a colaboração de vários dos artistas que marcaram a construção de Brasília, como Athos Bulcão, Marianne Pretti e Honório Peçanha. O Memorial localiza-se no mesmo espaço onde foi celebrada a primeira missa em Brasília, em 3 de maio de 1957, antes mesmo da transferência da capital.

Endereço Praça do Cruzeiro, Eixo Monumental – Lado Oeste
Horário 3ª a domingo das 9h às 18h
Telefone (61) 3226 7860

Hamilton Pereira da Silva 

Secretário de Cultura do Distrito Federal 

A cultura precisa ser indutora do desenvolvimento da capital do país. Em entrevista exclusiva ao Anuário do DF, o secretário de Cultura, Hamilton Pereira da Silva, alerta para a importância das atividades culturais no processo econômico de uma cidade. Por diversas vezes em tom de desabafo, Silva clama pela necessidade de uma discussão mais ampla em torno do financiamento da cultura. “É urgente que deixemos para trás um modelo que ignorava a relevância da cultura”, sustenta.

Ao destacar a rica diversidade cultural do DF, o secretário comenta o desafio de resgatar a autoestima dos brasilienses por meio da oferta de expressões artísticas. Na conversa que sintetiza o objetivo deste Anuário, Silva falou do esforço do atual governo em recuperar os espaços culturais e defende projetos que podem ampliar a democratização do acesso à cultura na capital do país. “Vamos levar muito tempo para reconstruir as políticas públicas de cultura em Brasília, mas estamos no caminho”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista:

 

Foto: Kazuo Okubo

 

Anuário do DF: 2012 é o Ano da Valorização de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade. Existem projetosespecíficos para atrair turistas à capital do país?

Hamilton Pereira: Estamos reconstruindo políticas públicas que ao longo de uma década foram anuladas. Quando assumimos, também recebemos o desafio de resgatar e valorizar os espaços físicos de cultura. Temos um patrimônio significativo. O turismo de Brasília se sustenta em dois planos: o institucional, caracterizado pelas pessoas que vêm a negócio e aproveita para conhecer a cidade; e o cultural, intimamente associado à identidade miscigenada de Brasília.

Temos discutido a cultura numa dimensão econômica – relacionada a turismo, educação, ciência e tecnologia – e de sustentabilidade ambiental. Além disso, precisamos encarar a cultura como direito básico do cidadão, dentro de um conceito já consolidado no mundo desenvolvido.

Está em curso um conjunto de iniciativas para revigorar os espaços de cultura no Distrito Federal. A reforma do Catetinho, um ponto de enorme valor afetivo e turístico, estápronta. Nosegundosemestre, espero, será concluída a reforma do Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes. A segunda da etapa da revitalização do Cine Brasília está em andamento.

Mas sabemos que ainda temos muitas pendências, inclusive em relação ao Teatro Nacional. Já assinamos uma autorização para captação de recursos extraordináriospararealizaruma reforma profunda. Precisamos devolver à sociedade um teatro condizente com a capital do país. Isso aqui (o teatro) é um ícone da cidade. É importante que a gente não perca de vista a necessidadedepreservaçãodos espaços culturais.

Anuário: O turista de negócio geralmente não alarga sua estadia na cidade aos fins semana. O que fazer para mudar isso?

Hamilton Pereira: Queremos fixar um calendário de eventos, para que os visitantes saibam o que a cidade oferece. Estamos preparando o Festival de Ópera, por exemplo, que atrai esse turista de negócios, mas também o amante do canto lírico.

Com a conclusão da Arena Multiuso (Estádio Nacional), vamos poder, a partir do ano que vem, contar com um espaço privilegiado. Estamos abrindo uma discussão dentro do governo para definirmos como preencher a pauta daquele espaço. Evidentemente, a cultura terá lugar garantido, além dos grandes momentos de entretenimento. Em breve, vamos oferecer uma diversidade de expressões culturais.

Anuário: Aos 52 anos, Brasília possui patrimônios imateriais, com base no conceito da Unesco?

Hamilton Pereira: O perfil de Brasília é o perfil do Brasil. Uma cidade de 52 anos não tem cultura definida, isso demanda séculos. Cinco décadas não definem perfil. Brasília é o espelho quebrado da cara do Brasil. Temos a igreja de São Sebastião, em Planaltina, uma edificação de 150 anos. E temos a cultura de massa contemporânea dos rappers e das danças de rua. Temos a Folia do Divino, tudo isso convivendo em um mesmo espaço.

Nosso cenário cultural é extraordinariamente valioso, enriquecedor. Somos uma cidade que carrega consigo a convivência do antigo e do contemporâneo. Revivemos e projetamos o futuro. Quem lida com cultura nesta cidade tem sempre de trabalhar com essa dupla dimensão: memória e invenção. Brasília sintetiza isso.

Anuário: Quais projetos ou políticas públicas estão em desenvolvimento em nome da manutenção da diversidade cultural de Brasília?

Hamilton Pereira: Algumas iniciativas são do Estado e outras, da sociedade, com o apoio do poder público. O Cena Contemporânea, por exemplo, ocorre há 12 anos nesta cidade, recebendo gente de todas as culturas do mundo. Nosso trabalho é para que o evento amplie suas atividades, que já são maravilhosas.

Também temos cuidado de preservar as diferentes manifestações de cultura popular. Vamos reformar ainda este ano a Casa do Cantador, em Ceilândia, que está caindo aos pedaços. O lugar tem a riqueza da arquitetura de Niemeyer. É um espaço valorizado pela comunidade.

Anuário: Por incrível que pareça, há mais pontos de cultura em Ceilândia do que no Plano Piloto.

Hamilton Pereira: O que mostra que estamos no caminho certo. A ideia é ter pelo menos um ponto de cultura em cada cidade. As pessoas que chegaram a Brasília trouxeram consigo uma bagagem cultural muito valiosa. Temos uma multiplicidade de expressões das colônias de Pernambuco, Piauí, Ceará e tantos outros cantos deste país. Cada uma tem o seu espaço no Distrito Federal. Se você chega ao Cruzeiro, é como se estivesse no subúrbio da Zona Norte do Rio. Ceilândia é Campina Grande. Taguatinga e Uberlândia são parecidas. Planaltina é uma cidade do interior de Goiás. Temos essa diversidade incrível e nossa política é descentralizar os investimentos e o acesso á cultura.

No ano passado, a crítica era de que sempre as mesmas pessoas recebiam recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC). Em nosso primeiro edital, 62% dos contemplados estreavam no fundo. Demos um passo importante. Quebramosafamosapanelinha. Hoje, os recursos são distribuídos por meio de edital, e não por portaria: aspessoassehabilitam, têm o projeto examinado e são contemplados ou não com a verba que pleiteiam.

Outro dado interessante: quando assumimos a Secretaria, 65% dos recursos iam parar no Plano. No nosso primeiro edital, esse percentual foi reduzido a 22%. Descentralizamosadistribuição, o que significa que há uma política consistente nesse sentido.

Anuário: Cultura e turismo possuem uma relação muito estreita. Existem políticas públicas ou projetos comuns às secretarias dessas duas áreas?

Hamilton Pereira: A Secretaria de Turismo tem sido uma parceira valiosíssima na reconstrução da cultura. Estamos trabalhando em um projeto para reerguer a autoestima da cidade. Brasília é diariamente fustigada com uma imagem negativa. Temos de recuperar a visão positiva da política e da cidade.

Brasília é o centro do país. Pessoas de todos os cantos vêm para cá. Este ano, fizemos do aniversário da capital uma grande festa da cultura, com a presença de diferentes manifestações artísticas. Em 10 dias, mobilizamos algo em torno de 500 mil pessoas. Movimentamos a economia local e reafirmamos os ícones da cidade, a imagem bela da arquitetura da única localidade contemporânea tombada.

Anuário: O Distrito Federal é a primeira unidade da Federação a usar o mesmo mecanismo usado pelo Ministério da Cultura, o Salic Web. Quais as vantagens desse sistema na seleção de projetos culturais?

Hamilton Pereira: Recolocamos a política pública de cultura do DF em sintonia com o governo federal. Não queremos reinventar a roda. Nesse sentido, estamos nos servindo de um sistema já implantado, que facilita a transparência do investimento, para que a sociedade saiba para onde vai o dinheiro do imposto.

A seleção dos projetos exige muito cuidado. Se existe uma coisa avessa a padrão, é a cultura. Não se produz Mozart ou Beethoven em série. Temos de ter noção de que a cultura é produto de talentos, mas, ao mesmo tempo, precisamos abrir espaço para que esses talentos se expressem. Quando democratizamos o acesso, recebemos 300 projetos. Brota muita gente. E é assim. Não se acha um Hamilton de Holanda ou uma Ellen Oléria na esquina, eles surgem porque foi dada uma oportunidade.

ANUÁRIO: Mas como funciona o sistema e como ele lida com essa subjetividade necessária durante a avaliação das propostas?

Hamilton Pereira: O sistema dá transparência eeficiência, facilita o processo. Mas quem julga o mérito do projeto não é o computador, e, sim, os conselheiros. Não há padrão na cultura. Temos de obedecer às peculiaridades da Lei 8.666/93. Mas os mestres de barro precisam ter acesso ao recurso público. Até porque ele vai agrega valor à pequena fábrica. Temos de envolver a Secretaria de Trabalho, por exemplo, nesse processo.

ANUÁRIO: Em que pé está a proposta para utilização de parte do ICMS para financiamento de projetos culturais

Hamilton Pereira: A proposta está no gabinete do governador Agnelo Queiroz. A Lei de Incentivo a Cultura do DF prevê, inicialmente, a renúncia de 1% do ICMS para investimento nas atividades culturais e na recuperação do patrimônio. O projeto seguirá para a Câmara Legislativa e deve passar por um debate. Espero que até o fim deste ano, esse novo mecanismo esteja aprovado.

Precisamos fazer um debate em torno do financiamento da cultura em termos gerais, e não apenas com base em fundos específicos. É urgente que deixemos para trás um modelo de desenvolvimento que ignorava arelevânciadacultura, indispensável para a economia de uma cidade. A cultura definitivamente não pode mais ser ignorada na discussão sobre o desenvolvimento do Distrito Federal. A sociedade como um todo tem de perceber a importância do investimento em cultura.

ANUÁRIO: O projeto do vale-cultura, em tramitação na Câmara, destinaR$ 50paratrabalhadores com carteira assinada que recebam até cinco salários mínimo. Qual o impacto cultural e econômico desse projeto no DF, se aprovado?

Hamilton Pereira: Seguramente, irá democratizar ainda mais o acesso à cultura. Nossos ingressos de shows e espetáculos são um dos mais caros do país. Em Brasília, as atividades culturais são muito custosas. Temos de trabalhar com programas de distribuição de renda e consolidar o mercado interno. De antemão, temos possibilidade de ampliar o que fizemos na Bienal do Livro, quando oferecemos um cartão literário para professores e alunos da rede pública, nos valores de R$ 80 e R$ 40, respectivamente. Foi um sucesso.

ANUÁRIO: Qual o impacto cultural e econômico da Bienal do Livro e do Festival Internacional de Arte de Brasília (FestiArte), dois novos eventos que marcaram a agenda da cidade?

Hamilton Pereira: A Bienal movimentou a economia do livro na cidade. Foi um evento onde não se pagou para entrar, articulado com a rede educacional, oferecendo um espectro daquilo que de melhor se produz na literatura do país e do continente. Isso nunca tinha ocorrido. Abrimos para economia do livro um horizonte muito mais amplo do que estávamos habituados. O governo aportou algo em torno de R$ 2,5 milhões com os cartões literários para aquisição de livros. Os livreiros adoraram.

Quanto ao FestiArte, a procura foi imensa. Tivemos de lidar com um problema: quando se democratiza o acesso, os espaços ficam pequenos. Ninguém reclama quando o Milton Nascimento vende ingresso a R$ 150, mas quando o Estado oferece shows desse nível gratuitos, cria-se um problema. A sociedade sabe o que é cultura de qualidade. Provamos com o FestiArte que a capital da República está desprovida de espaços culturais a altura de suas exigências. Vamos continua buscando recuperar a tradição do Estado como indutor de cultura, responsável também pela oferta de atividades.

ANUÁRIO: As políticas públicas de cultura do DF estão no caminho certo?

Hamilton Pereira: A reconstrução só se iniciou. Levaremos um tempo enorme para recuperar o tempo perdido. Com a falta de sintoniaqueBrasíliaestabeleceu em relação ao restante do país deixou a cidade muito atrasada. E quem fica no prejuízo, nesse caso, não é o governo, mas a própria população. Nossa tarefa, em última análise, é reerguer a autoestima dos cidadãos, de gente que ama esta cidade e se orgulha dela.