Literatura

“Por que Brasília resplandece ante a pobreza exposta dos casebres de Ceilândia, filhos da majestade de Brasília?”

Carlos Drummond de Andrade

Brasília em letras

Nascida de um sonho premonitório e armada em concreto curvo como o traço do arquiteto, Brasília foi construída em tom de poesia. Ao ser inaugurada, em 1960, pelo presidente bossa-nova, Juscelino Kubitschek, os dois maiores músicos da época, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, compuseram Brasília: Sinfonia da Alvorada, uma obra de ode à promessa da chegada da modernidade ao coração do país. Escritores do alcance de Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector escreveram sobre a cidade, ora em tom de devoção, ora em desencanto com a solidão da cidade. Descrita pelos grandes nomes da literatura nacional, Brasília tem atualmente produção literária feita em casa, como os escritores Lourenço Cazarré e João Almino, o jornalista José Rezende Júnior e os poetas Jorge Pereira e Wilson Pereira, sendo os três primeiros vencedores do mais importante prêmio das letras brasileiras, o Jabuti.
A VIVÊNCIA URBANA TRANSCENDE A CIDADE PLANEJADA 

A socióloga Eloísa Pereira Barroso abordou a literatura feita sobre Brasília no estudo Brasília: ascontrovérsiasdautopiamodernistana cidade das palavras e percebeu que as histórias escritas sobre a cidade passam por três momentos, que revelam o processo de urbanização da capital. Primeiro, há o encanto com a construção da cidade moderna. Em seguida, a exposição do desencanto com a cidade-solidão, que tem lindos prédios, mas “pouca tradição”. Por fim, a cidade passa a ser cenário de histórias para além do Plano Piloto, onde há vivência urbana transcendendo a cidade planejada. “A cidade permite o sentimento de brasilidade, ela é o vir-a-ser do Brasil moderno, é a representação corporificada do desenvolvimento desejado pelo país”, aponta a pesquisadora.

NICOLAS BEHR

De tanto subverter e poetizar com símbolos de Brasília, o poeta Nicolas Behr acabou tornando-se um símbolo a mais. Nascido em Cuiabá e radicado em Brasília, Behr faz parte da geração mimeógrafo, que nos idos dos anos 1970 vendia de mão em mão seus livros impressos de improviso. É dele livros como Grande circular, Caroço de goiaba , Chá com porrada e Porque construí Brasília. Brincando com palavras e as idiossincrasias da cidade, Nicolas Behr não poupa nem a si: “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama/ Nicolas Behr”.

Canta a tua quadra 

blocos, eixos,
quadras
senhores, esta cidade
é uma aula de geometria

Entre Quadras 

SQS415F303
SQN303F415
NQS403F315
QQQ313F405
SSS305F413
seria isso
um poema sobre brasília?
seria um poema?
seria brasília?

MÚSICA 

Trecho da Sinfonia da Alvorada 

“Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos

Ó alma brasileira …

… Alma brasileira …

Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração”

José Rezende Júnior 

Escritor e jornalista mineiro que vive em Brasília 

Anuário do DF: Você é de Minas Gerais, mas está sendo premiado e festejado como sendo parte de uma geração de escritores que pela primeira vez ganha voz nacional falando de e sobre Brasília. Conte um pouco sobre isso.

José Rezende Jr.: Minhas estórias se passam em lugares sem nome. Elas falam, antes de tudo, do ser humano em luta consigo mesmo e contra aquilo que o atormenta: a solidão, o medo, a velhice, a morte, o amor, o desamor e o ódio, entre outros demônios. As exceções se contam nos dedos – e uma delas é justamente Brasília, sobre quem escrevi os pequenos contos que fazem parte do livro-coletivo Cinquenta anos em seis, publicado em parceria com Nicolas Behr, André Giusti, Liziane Guazina, Pedro Biondi e Fernanda Barreto. A exceção se justifica: foi o nosso jeito de homenagear o cinquentenário de Brasília – logo, o cenário era Brasília, ou melhor, Brasília era a personagem principal.

Anuário do DF: E como Brasília está representada na sua literatura?

José Rezende Jr.: Há situações tipicamente brasilienses, claro, como os fantasmas dos velhos candangos que vagam entre o concreto de sua obra inconclusa, mas de um modo geral os pequenos contos do livro apropriam-se dessa cidade-personagem para falar justamente de solidões, medos, velhices, mortes, amores, desamores e ódios, entre outros demônios; encanto e desencanto, que não são sentimentos excludentes, ao contrário, teimam em viver juntos, na mais completa desarmonia. Sou, sim, um dos autores que escrevem daqui de Brasília, mas não posso me colocar entre as vozes que contam Brasília.

Anuário do DF: Brasília tem um bom público de leitores?

José Rezende Jr.: A verdade é que estamos todos – escritores brasilienses, gaúchos, mineiros, pernambucanos, goianos, amazonenses e brasileiros em geral – no mesmo barco, e o barco é pequeno, e há fissuras no casco. Cariocas e paulistas estão em melhor situação, porque são vizinhos dos principais meios de comunicação e grandes editoras, mas nem dá pra falar de privilégios num país em que a média de leitura é de quatro livros por ano, sendo dois lidos por inteiro e dois “em partes”. E mais: desses quatro livros que cada brasileiro lê em média por ano, alguns são didáticos (ou seja, de leitura obrigatória), e os mais lidos são a Bíblia e seus derivados.

José Rezende Júnior trabalhou no jornal Correio Braziliense comorepórter especial e é autor de A mulher-gorila e outrosdemônios, Estóriasmínimas e Eu pergunteiprovelhoseelequeriamorrer (e outras estórias de amor), que ganhou o Prêmio Jabuti 2010 de melhor livro de contos do ano.