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Gastronomia já é encarada como atrativo turístico e patrimônio imaterial 

A comida e as práticas da alimentação também se constituem como narrativa da memória social de uma comunidade. Dizem muito sobre a origem e os costumes de um determinado lugar. A gastronomia tem o poder de contar histórias, destacam no estudo Comida como narrativa da memória social a antropóloga Denise Amon e a psicóloga Renata Menasche. A “voz da comida” manifesta a memória de sabores e vivências.

O antropólogo Roberto Da Matta também evidencia a culinária como fator de identidade cultural: “o alimento diz respeito a todos os seres humanos, é universal, geral; comida define um domínio de opções, manifesta especificidades, estabelece identidades. Comida é o alimento transformado pela cultura”.

A alimentação e a cultura estão intimamente relacionadas. As cozinhas contemporâneas, por exemplo, são produtos de uma hibridação cultural. A história de evolução da culinária possui diferentes lados, segundo influências geográficas e temporais, conforme lembra Renato Coelho Gonçalves de Almeida, em monografia de conclusão de curso sobre o tema na Universidade Federal de Juiz de Fora (2006).

Zelar pela gastronomia é uma estratégia que contribui para o fortalecimento da memória e da identidade das localidades, e a valorização da culinária pode fomentar o desenvolvimento local e regional, além de alavancar o turismo cultural, como defenderam as pesquisadoras Mônica Nascimento e Feitosa e Sandra Siqueira da Silva, em estudo apresentado em 2011 no XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais.

No Brasil, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é o órgão responsável por políticas públicas de tombamento, registro e catalogação de bens culturais, incluindo aqueles relacionados à gastronomia. Reconhecidos como patrimônios culturais imateriais, esses bens devem ser protegidos por meio de instrumentos legais e pela atuação do governo.

A visão mercadológica

Inserido numa cultura de consumo, o conceito de gastronomia precisa cada vez mais se adaptar a um universo mercadológico. Em um estudo voltado exclusivamente para um bar situado em Belo Horizonte, os pesquisadores Gabriel Trillo Fonseca e Fernando Eustáquio Campos Utsch Moreira discorrem sobre temas inerentes ao setor de bares e restaurantes, independentemente de sua localização.

A culinária, como produto a ser vendido, associada a um conjunto de ações extras, pode ou não atrair a atenção de clientes. O mercado gastronômico, reforçam os pesquisadores, necessita de constantes atualizações e busca permanecer viável em um ambiente extremamente competitivo e repleto de concorrentes.

Obter uma correta interpretação dos interesses dos consumidores relacionados a produtos e serviços oferecidos faz a diferença nos estabelecimentos. A capital do país, considerada nova e com uma população de renda per capita elevada e apaixonada por culinária, oferece diversos nichos de mercado a serem explorados.

O sabor da cultura impulsiona a prática do turismo 

“O ato de comer possui um sentido simbólico para o homem. Cozinhar é uma ação cultural que nos liga a nossa história, ao que produzimos, cremos e projetamos. Desse modo, podemos entender que a comida constitui um conjunto de fatores culturais. De todos os atos naturais, o alimentar-se foi o único que o homem cercou de cerimonial e transformou lentamente em expressão de sociabilidade, ritual político, aparato de alta etiqueta. Compreendeu-lhe a significação vitalizadora e fê-la uma função simbólica de fraternidade, um rito de iniciação para a convivência, para a confiança na continuidade dos contatos” (CASCUDO, 1883, p. 42).

Cada vez mais, a gastronomia reforça seu potencial como produto turístico. A culinária comunica pontos geográficos, históricos e culturais de um povo e, dessa forma, de fato, este fazer e os modos e saberes a ele relacionados configuram-se como patrimônio cultural.

A preservação e a valorização da culinária de uma localidade merecem ser encaradas com a mesma importância de qualquer outro patrimônio cultural, como meio de fomentar esse potencial turístico. Diversos estudos realizados nos últimos anos comprovam que as escolhas turísticas permeiam a possibilidade de experiências interculturais, o que inclui o contato com a gastronomia.

O prazer da alimentação é avaliado e considerado um importante fator turístico, que atrai a atenção de pessoas motivadas a descobrirem a culinária local como fonte de cultura, conhecimento e sensibilidade, como ressaltam as pesquisadoras Kênia Braz Cunha e Leidmar da Veiga Oliveira.

Foi a partir do princípio do prazer proporcionado pela comida que surgiu o conceito de gastronomia, segundo o especialista Ariosvaldo Franco. Desenvolvida com base em princípios científicos e técnicos, a gastronomia envolve descobertas de sabores e ingredientes, compõe as necessidades nutricionais do indivíduo e interage com diversas áreas do conhecimento, como medicina, nutrição, administração, marketing e lazer. Sua história nasce junto com nossa civilização.

Assim, conhecer os sabores de cada região é viajar e encontrar outros costumes e hábitos, considerando que “cada região tem para si um modo de fazer e saber fazer” (FRIEDMAN, 1999, p. 330).

Gastronomia reforça o potencial turístico de Brasília

Turismo gastronômico 

Em sua terceira edição das Orientações básicas do turismo cultural, o Ministério do Turismo elenca o potencial do turismo gastronômico. De acordo com a publicação, este é um segmento emergente e capaz de posicionar destinos no mercado turístico quando utilizado como elemento de experimentação da cultura local pelo turista por meio da culinária típica.

A oferta turística de serviços de alimentação também integra o documento e apresenta-se como uma vantagem competitiva no desenvolvimento do turismo de uma localidade. Utilizada como um diferencial, a alimentação pode proporcionar experiências únicas para o turista e alavancar novas oportunidades para sua comercialização.

A participação em eventos gastronômicos está elencada como uma das principais atividades que podem ser realizadas pelo turista que tem por motivação esse segmento. Acompanhando esta tendência, o Distrito Federal já possui diversas opções de festivais gastronômicos, que ocorrem ao longo do ano, sempre atraindo centenas de pessoas aos bares e restaurantes.

O estudo também ressalta que o contexto no qual o turismo gastronômico está inserido vai ao encontro das atuais mudanças que vêm sendo observadas no padrão de consumo dos produtos turísticos, que são resultantes de transformações configuradas pelas tendências econômicas mundiais, oriundas da sociedade da informação.

Por sua vez, o projeto Caminhos do Sabor – A União Faz o Destino, desenvolvido como ação conjunta entre a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e o Ministério do Turismo, tem por objetivo aumentar o diferencial competitivo de um destino turístico por meio da gastronomia.

De acordo com este estudo, todo turista tem a intenção de vivenciar outra cultura, e a gastronomia pode ser o ponto de partida para conhecer um determinado local, uma vez que é vista como parte importante da cultura da região. Prova disso é que algumas comidas típicas brasileiras, como o acarajé, já fazem parte do patrimônio imaterial brasileiro.

O Caminhos do Sabor revela, em Brasília, por exemplo, 32,5% dos visitantes já estiveram na capital mais de cinco vezes, fato que confirma a frequência do público que vem de outras cidades para a prática do turismo de negócios.

Indica ainda que a origem diversificada da população tornou o consumidor brasiliense mais aberto a novas experiências. Segundo o estudo, os chefs da alta gastronomia local avaliam que o público de Brasília é muito curioso, o que permite as experimentações da cozinha contemporânea, e com isso a diversificação dos negócios no setor de alimentação.

Mas os levantamentos realizados também revelam que existe uma insatisfação dos clientes quanto à qualidade dos serviços prestados na capital federal. Por isso, um dos focos estratégicos do projeto está voltado à qualificação profissional, com ações relacionadas ao atendimento e à educação continuada – que não é focada apenas na capacidade técnica, mas capacita a pessoa ao novo aprendizado, aprimora os conhecimentos do profissional e viabiliza a proximidade cultural entre o prestador de serviços e o cliente.