Radiografia do DF

Um projeto de urbanismo revolucionário 

Há 55 anos nascia o projeto urbanístico de Brasília. Elaborado pelo arquiteto Lucio Costa, o plano fez brotar da mata inexplorada do cerrado uma cidade linear e setorizada, diferente de todas as capitais brasileiras, merecendo da Unesco o título de Patrimônio da Humanidade.

A ideia inovadora de construir o Plano Piloto em forma de avião ganhou o concurso para a construção da nova capital federal, entre muitas outras propostas, e priorizou a liberdade. Lucio Costa previa espaços amplos e de livre acesso que permitiriam caminhar por toda a cidade embaixo do céu sempre visível.

O conceito de cidade-parque aplicado no projeto faria de Brasília uma das cidades mais arborizadas do país. As áreas separadas por setores facilitariam o trânsito, e as pessoas encontrariam rapidamente o que necessitassem.

A cidade ganhou forma dividida por dois grandes eixos. O horizontal, conhecido como “Eixão”, tem 15 km de extensão e corta toda a área residencial. O vertical, chamado de “Eixo Monumental”, separa as asas do avião entre norte e sul, e às margens dele estão as principais obras políticas e culturais, como o Congresso Nacional, os ministérios, a Biblioteca Nacional, o Teatro Nacional e a Torre de TV. “É assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficiente, acolhedora e íntima”, definiu Lucio Costa no Memorial do Plano Piloto, relatório que descreve o projeto.

O Lago Paranoá, criado juntamente com a cidade em 1960 para suavizar os períodos de seca, inspirou o urbanista a pensar no tamanho dos edifícios de forma que a visão dos cerca de 40 km• do lago ficasse ao alcance de boa parte dos moradores do Plano Piloto. Hoje, o grande espelho d’água é uma importante fonte econômica e de lazer, com um potencial a ser ainda mais explorado. Há mais de 11 mil embarcações registradas no Distrito Federal, o que o faz ter a terceira maior frota náutica do país.

A capital federal tem pela frente desafios semelhantes aos de qualquer outro grande centro urbano. O trânsito, por exemplo, já apresenta problemas, como a falta de estacionamento e os longos engarrafamentos, mesmo que em situação ainda muito mais amena do que a de outras metrópoles. O excesso de carros (a frota já ultrapassa 1,2 milhão de veículos) provoca o governo e a própria sociedade a encontrarem alternativas para aprimorar a mobilidade urbana.

Brasília é uma cidade em constante transformação, apesar das limitações impostas pelo tombamento na tentativa de preservá-la. O projeto de Lucio Costa não foi totalmente concluído de uma só vez. Somente nos anos 2000 o Museu e a Biblioteca Nacional, pensados na proposta original, saíram do papel. A Torre Digital, desenhada por Oscar Niemeyer, não estava nos planos, mas, com 180 m de altura, foi criada para melhorar o sinal digital de emissoras de televisão e agora faz parte da lista dos cartões-postais da cidade.

O Noroeste, último bairro residencial do Plano Piloto, é outro exemplo do dinamismo da cidade. Projetado para ser ecologicamente sustentável – apesar de todas as polêmicas ambientais e jurídicas envolvidas –, o espaço está em fase de construção. Terá, quando completamente concluído, 15 mil unidades residenciais espalhadas por mais de 200 prédios e abrigará entre 40 mil e 50 mil pessoas.

No começo de 2012, representantes da Unesco estiveram em Brasília para avaliar o estado de conservação do projeto original da cidade e analisar a permanência do título de Patrimônio da Humanidade, concedido a Brasília em 1987. A entidade alertou para a importância de, mesmo com as transformações naturais no decorrer dos anos, respeitar as normas estabelecidas e, assim, preservar a invejável qualidade de vida proporcionada aos moradores.

Diante de tantos desafios, o projeto de Lucio Costa está preservado. A cidade não perdeu a praticidade de suas ruas largas nem o aspecto monumental das obras que despertam a atenção do mundo inteiro. Mais de cinco décadas após sua idealização Brasília continua moderna, encanta e surpreende não só visitantes brasileiros e estrangeiros, mas todos os habitantes, eternos turistas.

No começo de 2012, representantes da Unesco estiveram em Brasília e concluíram que o projeto de Lucio Costa está preservado – Foto: Kazuo Okubo